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quinta-feira, novembro 22, 2007

Enterro

foi tal a vibração
que sentiste no enterro,
as lágrimas escorregavam
em nome do medo

"sobreviver" dizes tu
à imagem de quem sofre
caras escondidas no
entupimento do sentimento.

descansa sobressaltado
a cara pálida por enterrar
do corpo sai a chama e
o que ficou por falar.

vestimenta negra
engana quem a vê
nem na morte te deixam
ser quem és.

nascemos nús com
toda a naturalidade
na morte saimos vestidos
com esperança na eternidade.

as lágrimas escorregavam
em nome do medo
haverá tamanho amor
em outro qualquer enterro?

não pisamos relva
como nos cemitério americanos
o morto que descansa
contenta-se com ramos:
rosas, dalilas e malmequeres
na morte tanto faz.

apazigua a saudade e
dele não te faças esquecer
mordendo a lembrança
pensa como uma criança
antes de amares alguém.

as lágrimas escorregavam
em nome do medo
haverá tamanho amor
em outro qualquer enterro?

amar devagar
até que a morte nos separe.


22 de Novembro 2007
Hugo Sousa

segunda-feira, novembro 19, 2007

Sopro

quando for pó
vou venerar o teu cheiro,
pedir o teu abraço,
desejar o teu beijo.
saído de um sopro
chega o comboio de partida,
o ar que me pega
e me leva
a sentir um resto de vida.


19 de Novembro 2007
Hugo Sousa

sábado, outubro 13, 2007

Resto

espreita-me no mundo,
olha em teu redor:
toda a gente veste branco
e eu preto que é de dor.

e depois?
cai-me a pele,
solta-me o rosto
e fico perdido na memória das páginas.

Hugo Sousa

terça-feira, abril 03, 2007

Amor Amor

a música começou calma, de uma forma branda
antes do primeiro sinal de voz

ele conhece-a,
ela conhece-o,
ele sentia-a,
ela começava a senti-lo,
ele queria namorar com ela,
ela soube e permitiu

ele namorava com ela,
ela gostava dele,
ele beijava-a com amor,
ela beijava-o com calor,
ele avançou no tempo,
ela caminhou com ele

ele pediu-lhe em casamento,
ela fez como no pedido de namoro,
ele ficou feliz,
ela sorriu,
ele casou com ela,
ela casou com alguém

ele alegrava-se todos os dias,
ela contentava-se com o seu alegrar,
ele continuava a amar,
ela com outro queria estar,
ele deixa de ser ele,
ela começa a ser ela

ele sai à rua,
ela na rua está,
ele decora a morada,
ela permanece lá,
ele encontra os dois,
ela encontra-o a ele

ele chora por dentro,
ela anseia a sua partida,
ele fecha os olhos,
ela fica assustada,
ele mete a mão ao bolso,
ela com o outro permanece calada,
ele tira a mão do bolso,
ela...

calou-se a voz ainda há pouco iniciada,
ficou no ar o som do baixo a lembrar
os tons negros de um funeral.


3 Abril 2007
Hugo Sousa

Vou Continuar

vou continuar, da mesma forma que sou,
- simples e discreto - a gostar de ti

vou continuar a querer o teu pescoço
para poder beijar a pele descoberta
ou beijar-te com um olhar envergonhado

vou continuar os dias por longos e
largos caminhos a respirar o teu ar,
fechar os olhos depois de te cruzar

vou continuar a mexer nas nuvens até
parecer existente um desenho meu e teu
afixado num lugar clandestino no céu

vou continuar a tocar-me pensando
na lingua a percorrer-te e a tocar-te:
desejo para além do pensamento

vou continuar a levar comigo
o sabor do teu cheiro morto nos lábios,
epicentro deste terramoto

devastador é quando o telefone não toca
e nada chama pelo nosso nome,
pela nossa incongruente presença

vou continuar continuamente...a continuar,
só assim consigo suster a bala
mortalmente pronta a atingir o objectivo

vou continuar a regar as flores
que plantei em teu redor, nos sonhos
mais singelos e inocentes

vou continuar a deixar consumir-me pelo
rato roedor que vive dentro de mim,
atiçando os nervos consequentes da tua indiferença

vou continuar até que nada me seja imposto,
enquanto a morte me permite ser eu
e deixe que continue a sentir-te

o telefone não toca e
nada chama pelo meu nome,
pela minha incongruente presença


3 Abril 2007
Hugo Sousa

sexta-feira, março 30, 2007

Dor

de um olhar no escuro
pode-se esperar um silêncio
proveniente da dor calada
com um sorriso disfarçada.
na malícia do ímpeto grito,
esconde-se por trás das cortinas
o mutismo da mágoa embarricada que
não deixou de existir:
foi dividido e agora
não só vive na ténue dor calada,
como também sangra no grito
do silêncio.


30 Março 2007
Hugo Sousa

Velho

nascer: renascer: voltar a viver,
é esta ilusão que mergulha no ser
afundado.

passar p'la rua e apenas se vê,
olhando para o banco de jardim,
um velho deitado sem saber porquê
rejeitado pelo medo de um dia sermos assim.

coberto de trapos e mantas
enfrenta o frio e a chuva,
deitado na solidão do ar
só pensa com tudo acabar.

a vida não sorri
ele não consegue chorar,
a vida não se deita
ele não se consegue levantar

uma estrela dá-lhe luz,
ele chora e sorri,
fecha os olhos devagar
- pobre velho faleceu -
com cara de inocente
olhando para o céu


Hugo Sousa
30 Março 2007